Livro: "O Conto da Aia", Margareth Atwood - Psicanalista Sandro Cavallote
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Livro: “O Conto da Aia”, Margareth Atwood

A importância da cultura (inclusive da POPpular) pode ser diferencial na jornada psicanalítica a partir de nos apresentar possibilidades de um passeio ao passado, presente e futuro a partir de uma visão subjetiva dentro de possibilidades, na maioria das vezes, focada em opostos, em antagonismos, em subterfúgios de uma pretensa ficção.

Tema importante para a Freud, o conceito de fantasia foi expandido posteriormente por Lacan, para a travessia, para a formação dos sintomas. Portanto, fantasiar, seja com estruturas distópicas que podem ou não ter consistência em bases históricas é parte do exercício da mente saudável.

“O conto da aia” organiza vários elementos que permeiam nossa coletividade: a religião como estrutura política, a exclusão de elementos básicos de sociabilidade, a violência como forma de obliteração de si, o cerceamento da cultura. Lançado em meados da década de 1980, o conteúdo é assustadoramente atual, principalmente pelo momento que, não apenas o Brasil, mas o mundo novamente passa por uma ameaça fascista, de um conservadorismo inócuo, em que, diariamente, temos notícias do uso da fé em função do poder, de um discurso que não se sustenta nem na dialética, nem na prática. “Cristo não comprou pistola porque ainda não existia”, J.M.B – 2022.

Em 1999, a banda Pavilhão 9 lançou seu álbum “Se Deus Viver, que venha armado”, em que a música-tema versa sobre como seria complexa a descida do Messias, devido ao domínio da elite (com controle sobre os empregos, fome, conhecimento e cultura) e como ela se defenderia de forma violenta pelo discurso de paz que seria direcionado pelo Todo Poderoso:

“Digo mais / Tudo se resume em bombas de gás / Cientistas fazem bombas / Vários tanques de guerra
O todo poderoso / É aquele que domina a terra / E nesse inferno / Se Deus vier que venha armado!
Mas eu não paro por aqui / Tenho muito a falar / Crianças soltas perdidas / Situação anormal / Reféns da crise social”

Portanto a obtenção da cultura como fonte de poder é parte de nossa necessidade de entendimento do humano. E que, cada vez mais, nossa fantasia perpasse essa camada de ódio para figurar onde merece: acessível a todos, sem distinção.