
[Livro] “A fábrica de cretinos digitais”
Revisitando um dos livros que me trouxe muitos insights para a relação com o sujeito adolescente e, principalmente, e ajudou a situar algumas informações sobre tempo de telas e a influência das redes sociais no desenvolvimento neural das crianças e dos adultos em formação.
E o francês Michel Desmurget (pesquisados especializado em neurociência cognitiva) não poupou esforços para trazer em sua obra números atuais e reveladores sobre como a dinâmica que criamos com as telas influenciam em nossa vida, mais diretamente sobre a forma que aprendemos e exercitamos nossa memória. A imersão precoce promovida pelas empresas de tecnologia focadas em busca de dados desvia nossos processos internos, direcionando para interesses pessoais e corporativos, fazendo com isso afete desde nossa cognição, nossa gestão emocional, linguagem, coordenação motora, até o distanciamento que desenvolvemos do contato, da troca, das situações que envolvam afetos. A linguagem é acessível e fluída.
Ao contrário do que se imagina, a obra não é anti-tech, ela só nos leva ao debate de que o digital tem, sim, possibilidades positivas e que pode nos ensinar muita coisa, mas que depende de nós estarmos dispostos a exercer uma posição ativa e não passiva em relação aos conteúdos e dinâmicas promovidas pelas redes. Pois se o foco for apenas em consumo (seja no produto, seja no serviço, ou seja na obtenção de dados), estamos fadados a um mundo onde a saúde mental estará sempre sujeita ao Outro neste processo, o que, por si só, já é motivo de angústias diversas.
Para pais e educadores, pode servir como um guia estrutural de novas formas de acolhimento, nem que seja para causar insights que possam trazer mudanças no cotidiano e estabelecer posicionamentos críticos embasados quando ao uso das telas. Porque quanto mais nos sentimos íntimos delas, mais nos distanciamos do nosso desejo, do social, do enfrentamento da realidade. E, como diz o livro logo em sua abertura, se os grandes gurus da tecnologia estão proibindo que seus próprios filhos usem telas quando crianças, o que essa mensagem tão óbvia está querendo nos dizer?
“A fábrica de cretinos digitais”
(Le fabrique du crétin digital)
Michel Desmurget