
[Filmes] As duas Irenes
Uma situação não muito incomum no Brasil: a de um pai que tem duas famílias. Na grande maioria dos casos, que não se conhecem. Mas o acaso é algo muito particular e, de vez em quando, nos coloca em rota de colisão com as situações que alguns querem manter em segredo. Por acaso, a adolescente Irene descobriu que seu pai tem outra família em uma cidade relativamente próxima. E que ela tem uma meia irmã praticamente da mesma idade, chamada… Irene.
Aos poucos, Irene se aproxima dessa outra jovem, quer entender o que ela é, o que é a família na qual ela é inserida, como é a vida dessa Irene, quase como se esperasse uma visão de um espelho. Inicialmente se apresentando com outro nome mas, aos poucos, a construção da relação das duas se dá nas vias da amizade e da descoberta das experiências adolescentes, criando uma conexão de cumplicidade e respeito.
A puberdade, uma época tão complexa para cada um de nós, é explorada aqui pela descoberta da sexualidade, mas também pela necessidade de acolhimento pelo não-dito. Cobrada por sua família por algo que não quer ser, Irene demonstra essa insatisfação pelo silenciamento e pelo papel desempenhado pelo “filho do meio”, que parece sempre estar entre uma coisa e outra. Na descoberta dessa outra família, Irene também tem que lidar com os afetos relacionados ao pai que, claramente, trata ambas famílias de formas diferentes, inclusive economicamente. Acrescente a esta ebulição adolescente o ter que lidar com uma determinada hipocrisia adulta também. Tantas descobertas em tão pouco tempo.
É um filme simples, mas que mexe com nossas lembranças mais íntimas. Diria até educado, que não se propõe a dimensionar grandes reviravoltas, mas que trata com muito respeito os dilemas da construção do adolescente e como as perspectivas de desamparo são melhor abraçadas na companhia de um outro que nos respeite. E que as cicatrizes emocionais serão muito mais profundas do que imaginamos.
“As duas Irenes”
Dir: Fábio Meira
Disponível no Netflix