
[Filme] “Um filho”
“Recordar / Repetir / Elaborar”. Essa premissa básica da psicanálise desenvolvida por Sigmund Freud é mais do que uma ferramenta. Assemelha-se a um trabalho arqueológico que visa uma mudança de perspectiva a partir das experiências vividas durante a vida. Muito mais do que simplesmente “lembrar”, o recordar é algo que se dá no setting analítico, onde o analisante revisita angústias, sofrimentos e até pretensas alegrias, e agora pode “repetí-las” para que sejam “elaboradas”. Tudo isso visando desatar nós do passado, agora com a estrutura psíquica melhor desenvolvida, organizando os enfrentamentos que antes não seriam possíveis.
“Um filho” poderia ser facilmente um filme sobre a relação entre pais e filhos, mas vai muito além disso. Ele é permeado por camadas relacionais que se interpõem entre si e que se tornam atemporais, envolvendo as dinâmicas familiares, a busca dos desejos pessoais, o ceder ao Outro, a busca constante de algo que que falta, mas não se nomeia. A subjetividade expressa nas relações intergeracionais entre pais, filhos, mães… os muitos não-ditos individuais que reverberam no coletivo, na figura das famílias.
Mas e quando estamos tão ausentes de nós mesmos a ponto de não conseguirmos dar suporte a quem nos cerca? Quando nossas angústias são representadas em nossos medos mais íntimos? Nossas próprias fugas nos colocam em rota de colisão com o sofrimento psíquico que, pouco trabalhado, toma decisões duvidosas e que, certamente, trarão consequências. E para mim, cujo foco de estudos/debates tem muita base no sofrer adolescente, sofri em silêncio.
Como naquela música do Ira! que é um fantasma em minhas análises pessoais: “Se meu filho nem nasceu, eu ainda sou o filho”.
Um filho de um filho.
“The Son”
Dir: Florian Zeller
Disponível no Amazon Prime.