
[Filme] “O Presente”
Ressentimento. A psicanalista Maria Rita Kehl tem um livro inteiro dedicado ao tema. Entre as várias contribuições trazidas, ela diz que “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer” – é desse modo que o ressentido se conduz a um beco sem saída: ao não assumir a responsabilidade sobre a própria situação, ele busca apenas uma vingança “imaginária e adiada”.
O “re-sentir” também é uma dinâmica de memória, de não esquecimento. O que não causou trauma e não foi acompanhado está espelhado em nossa memória afetiva, em nossa constituição, inclusive social. O enfrentamento é necessário de ambas as partes: porque para haver um ressentido, há um que ressentiu.
“O presente” é um filme que fala sobre como nossas construções infantis têm efeitos em nós e nos que nos cercam, assim como nossos narcisismos. Cada um à sua maneira, cada um com suas próprias noções de continuidade. E como nossas atitudes reverberam, marcam, constroem, direcionam.
E, quando falta acolhimento, o que pode se erguer, na verdade, são nossos impulsos mais íntimos e antigos. O ressentimento pode ser o afeto mais complexo com o qual teremos que lidar. Ao tornar-se raiva e rancor, necessita-se de expressão de alguma forma.
“O presente”
Dir: Joel Edgerton
(disponível no Amazon Prime)