
[Filme] Ex_machina
“Deus ex machina” é um termo utilizado desde a Grécia Antiga para elaborar metaforicamente a ascensão de uma divindade a partir da utilização de mecanismos, como o guindaste, para levantar um ator em palco, muito mais para indicar soluções inesperadas dentro da narrativa, improbabilidades e potenciais mirabolantes para engrandecimento da obra fictícia.
Entretanto, com o tempo, esse “deus surgido da máquina” na figura da linguagem começou a ganhar amplitude e significados mais abrangentes, muitas vezes na figura do inesperado, do improvável. E com a evolução tecnológica, muitas vezes é utilizado para organizar nossa simbiose com aparelhos que nos trazem soluções “miraculosas” e, no imaginário popular sci-fi, a percepção de que as inteligências artificiais seriam o último processo de fusão entre o que é mecha e o que é biológico.
O filme de Alex Garland brinca muito com isso. Mas sempre tentando flertar com o verossímil. Talvez seja a representação mais próxima do que pode ser nossa relação com as IA´s, principalmente na potencialidade de relação com a mente. Afinal, quando se tem dinheiro suficiente, pode-se “brincar de deus” de várias formas, inclusive com o cruzamento de um grande sistema de busca como o Google e como uma construção artificial vai fazer uso de tais dados. Mas, e se o acesso à busca de dados fosse dada de forma irrestrita? Como testar se um robô assimilou as questões existenciais que comportam o que nos torna humanos? Talvez, a única forma, seja conviver com um humano a ponto de que as relações e comportamentos sejam constituídos sem a percepção do difusor mecânico. Um novo teste de Turing?
Em termos de desenvolvimento psicológico, o filme é uma excelente forma de perceber o isolamento social e como nosso comportamento oscila quando confrontado com a realidade. E como nossas relações digitais de busca de prazer, fantasias e gozos simplificados cadenciam a maneira que a internet nos oprime em nosso próprio desejo.
Mais do que ficar maravilhaodos com o aprendizado de máquina, talvez seja hora de observarmos nosso real papel na manutenção do que estamos planejando criar. Afinal, quem está sendo manipulado nesse processo?