
[Filme] “Cafarnaum”
Durante nosso desenvolvimento infantil, passamos por várias provações e construções subjetivas, sejam as que fortaleçam nossa psique, sejam as que a deterioram. E a psicanálise trabalha com ambas, pois a relação com o desejo do analisante é pessoal e única.
E quando essa condição extrapola os limites da aceitabilidade, onde classes sociais excluídas precisam lidar com a miséria constante, a falta de afeto generalizada e, desde muito cedo, precisam lidar com a sobrevivência em si? Inclusive a de seus cuidadores negligentes e abusivos?
A resposta do protagonista deste filme foi: processar os pais.
Partindo desta premissa inicial, a obra escancara a realidade às quais somos submetidos diariamente, mesmo que indiretamente, inclusive nos fazendo encarar várias coisas que, no cotidiano, tendemos a desviar o olhar, como se isso fosse possível para nossa construção psíquica. O sofrimento, independente da língua, é da linguagem, universal e constitutiva do ser humano.
E dentro dessa vulnerabilidade, as políticas públicas que não favorecem o acolhimento e que tratam a dor com paliativos, como se fosse possível aplacar as experiências às quais somos submetidos ininterruptamente. O biológico sente, a mente guarda, tenta elaborar. Mas nessa repetição, nem sempre há espaço possível para a compreensão e a reconstrução simbólica da violência, seja ela física, mental ou emocional.
Empatia não é uma palavra, tampouco é um conceito. É uma representação do que devemos ser em elaborações de acolhimento. Sem ela, a humanidade só cria distanciamentos e exclusões.
Rever conceitos e ter a coragem de olhar para fora da janela do carro é parte de um processo de desconstrução diário. Para aqueles que estão dispostos, claro.
(*) O título do filme é maravilhoso.
(**) Procure onde está sendo exibido no justwatch.com
“Cafarnaum”
(Capernaum – Líbano – 2018)
Dir: Nadine Labaki