
Estar sempre disponível
O Whatsapp (leia-se todos os comunicadores de mensagens instantâneas) é invasivo. Isso é um fato. Não é porque o cotidiano nos obrigou a adaptar-nos que isso seja uma meia verdade. Toda a estrutura dos comunicadores automatizados é baseada em apenas uma coisa: causar ansiedade.
É até simples de perceber: você recebe uma mensagem, o app indica que você leu a mensagem. Você automaticamente cria uma responsabilidade e pressão pessoal por dar uma “resposta” para a mensagem. A partir desta leitura, não importa se você está fisicamente com outra pessoa, mas a mensagem disponibilizada no celular tornou-se prioridade. Mesmo que você coloque a opção de que o interlocutor não identifique a leitura, cria-se uma dinâmica de responder, nem que seja em nível inconsciente. É insidioso e nos tira das sensações mais simples (como a de leveza, por exemplo) a partir dessa forma traiçoeira de controle.
E nem vamos entrar na seara do envio de documentos, fotos, responsabilidades em um mecanismo que só empilha conteúdos sem nos dar a permissão de uma organização coerente. Para quem é obrigado a utilizar como ferramenta de trabalho, é um terror. Perde-se muito mais tempo se procurando um documento ou conversa do que nunca na história da humanidade. Mas ninguém percebe (ou prefere não ter tempo para perceber / ou não tem tempo para perceber) porque o ritmo ditado não é o seu, é o do Outro. E o Outro só se importa com o que lhe é de interesse.
Estar sempre disponível vai muito além deste contexto, mas é um começo. Ele está ligado diretamente ao discernimento que cada um de nós tem sobre nossas prioridades em relação ao Outro. Priorizar pessoas e relações que realmente façam a diferença para mim, por exemplo. Ou responder no seu próprio ritmo, ou se dar o direito de não saber uma resposta naquele momento. Ou sentir que um relacionamento vai terminar porque o Outro não conhece (ou não respeita) meu próprio tempo.
Sempre o tempo do Outro.
E quanto ao seu tempo, que se esvai nesta relação de sempre estar disponível?
Por que não estar mais disponível para você?