Big Mouth e o adolescente em cada um de nós - Psicanalista Sandro Cavallote
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Big Mouth e o adolescente em cada um de nós

Nas últimas décadas, tivemos uma explosão de animações direcionadas para adultos. O que antes era restrito apenas a colecionadores e interessados em HQs (como Fritz the Cat ou Liquid Television — segmento do Cartoon Network que ajudou a popularizar o tema e descobriu centenas de novos artistas ) tornou-se um segmento rentável com a internet. Muitas dessas animações abusavam da violência, sexo e nosso instintos mais primitivos, mas muitas delas gostavam de flertar com a psicologia, os conceitos de terapia e até com paralelos filosóficos e sociais. O anime já fazia isso há muito tempo no Japão, muito mais acostumado com esse tipo de conteúdo mas, para nós, ainda não havia um desenvolvimento sólido sobre essa transposição dos quadrinhos para animações com foco em temas adultos fora do underground.

Com o desenvolvimento das provedoras de conteúdo on demand, as produções ganharam um fôlego nunca antes visto. Entre as inúmeras possibilidades narrativas, podemos ir da ficção cômica de Rick and Morty (que também aborda vários conceitos de ciências, tecnologia e filosofia), passando por Bojack Horseman (que tem foco na busca do sucesso como desejo, nas decepções e causas relativas a depressão, vícios e outros tipos de dependências), até Mr. Pickles (que trata de ironias e piadas sobre religião, violência e estilo de vida), isso sem contar as que tratam de sexo como elemento principal.

Isso tudo muito acessível para qualquer um, independente da idade. Mesmo com os mecanismos disponibilizados, não há dúvida de que a internet é um espaço aberto e quem quiser encontrar algo, encontrará. Portanto fica difícil estabelecer parâmetros em que tais animações possam ser ou não benéficas para alguém fora do espectro de entretenimento. Entretanto algumas produções se preocupam em passar mensagens corretas e, no mínimo, responsáveis para quem está assistindo. Nessa linha de raciocínio, Big Mouth destaca-se por ser assertiva em praticamente tudo o que se propõe como entretenimento adulto, mas com um foco inusitado no tratamento que dá aos problemas relativos à adolescência.

Inicialmente tudo é bastante estranho. Para quem não está familiarizado com a série, imagine Tommy, da série infantil da Nickelodeon Os Anjinhos, agora um adolescente que enfrenta os problemas da puberdade, do sexo e da quantidades de afetos que cercam toda esta fase da vida. Temas como masturbação, menstruação, ejaculação, orgasmo, homossexualidade e bissexualidade são constantes, mas sempre tratados com muito respeito e conhecimento. Os subterfúgios utilizados para tocar em tais assuntos são trazidos pelos Monstros de Hormônio, que acompanham os adolescentes e estão tão suscetíveis aos impulsos gerados que podem, ou não estar, estar sob controle. Outros personagens são utilizados para falar de temas como depressão, hormônios, uso de drogas, sempre com muita responsabilidade, mas com uma boa dose de humor escatológico. Passado este estranhamento inicial, se identificar com alguns personagens apresentados torna-se divertido, saudoso e muito esclarecedor.

Não acredito que Big Mouth seja uma boa série para ver com seus filhos, mas certamente vale a pena para adolescentes entenderem que não estão sozinhos nesta fase tão complicada, cheias de novos sentimentos, idealizações do correto / incorreto e na apresentação de seus primeiros desejos e necessidades individuais, assim como no enfrentamento das mudanças corporais, do desenvolvimento sexual e do luto pelos pais da infância. Acredito que a estrutura de linguagem da série fala exatamente com eles. E, para os pais, funciona para relembrar diversos momentos e passagens da própria adolescência, assim como pode ser uma ferramenta de reflexão sobre o que se passa com seus filhos, uma revisita aos atos que fizeram com que eles se tornassem o que são hoje. Afinal, somos feitos de experiências e escolhas, muitas vezes conscientes, muitas vezes totalmente inconscientes.