AI´s (IA´s) e a ética na psicanálise - Psicanalista Sandro Cavallote
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AI´s (IA´s) e a ética na psicanálise

Ponto comum entre trending topics e debates em geral, AI´s (Inteligências Artificiais) ganham força também nas trocas relacionadas à saúde mental. Afinal, o quanto há de manejo clínico de verdade quando o assunto é a automação do sofrimento individual?

Acho que podemos começar por aí, pela individualidade, na figura da singularidade. Todos sabemos da dinâmica do setting analítico, que é um espaço constituído pela troca das figuras do analista na manutenção da Escuta e da Associação Livre (regra fundamental), e de como ele é fundamental para a atenção flutuante, neutralidade e abstinência do analista. Só pelas 4 regras fundamentais propostas por Freud, há dissonância do que seria mais importante para este debate e que poucas pessoas comentam: a ética.

Ouvi há muito tempo atrás meu professor Clóvis de Barros, quando do lançamento de seu livro “Ética na Comunicação”, trazer o debate sobre a ética de um ponto de vista mais humano, quase como se ele tentasse traduzir o intraduzível. Funcionou, suas aulas tocaram centenas de pessoas, tenho certeza disso. Mais do que isso, ética se tornou um vocábulo permitido, menos endurecido, mais acessível do ponto de vista humano. Pelo menos para mim. Sobre a ética em si, ele dizia algo como: “A ética é um conhecimento a serviço da vida e da convivência, que lida com pessoas reais, não com um ser humano genérico”.

“Ser humano genérico”.

Pois o debate acerca de o uso de AI´s, não apenas no limite da saúde mental, deve ter início neste ponto: o de que estamos tratando um mecanismo de obtenção de dados que, na verdade, é um campo de estudos, não uma entidade. Essa simplificação faz toda a diferença no discurso, porque AI´s estarão trabalhando a serviço de conglomerados que visam lucro, já insidiosamente pertencentes à nossa vida, coletando informações a cada segundo. E aceitamis isso ao clicar em “permitir”, ou nos termos de uso de cada app.

Enfim, a constituição de um setting analítico passa, invariavelmente, pela ética, pelo acolhimento e pelo não-julgamento. E por mais ortodoxo que seja é, ainda, o que nos separa de um tal Deus Ex-Machina que pretende emular o que temos de mais importante no acolhimento: nossa humanidade.